Porque saber o que queres não é suficiente

Porque é que saber o que queres não é suficiente para mudar a tua vida? Muitas pessoas chegam à terapia com a mesma pergunta: “Se sei o que quero, porque continuo a fazer o contrário?” Sabem que gostariam de ter mais confiança, de colocar limites, de cuidar mais de si próprias, de encontrar um relacionamento saudável ou de viver com mais tranquilidade e realização — e, ainda assim, algo parece puxá-las sempre para o mesmo lugar. A verdade é que a mudança raramente depende apenas da força de vontade. A parte consciente de nós define objetivos e toma decisões, mas existe uma parte muito maior que funciona de forma automática, baseada em experiências, emoções e memórias acumuladas ao longo da vida: por vezes desejamos avançar, mas algo interno aprendeu que avançar não é seguro; queremos ser vistos, mas aprendemos que chamar a atenção traz críticas; desejamos amar e ser amados, mas carregamos o medo de ser abandonados. Enquanto estas partes permanecem invisíveis, sentimos que lutamos constantemente contra nós próprios. E o corpo guarda muitas vezes aquilo que a mente esqueceu — tensões, aperto no peito, nó na garganta ou um estado constante de alerta são formas de comunicar emoções ainda não compreendidas.

Por isso, na terapia não trabalhamos apenas com pensamentos: aprendemos a escutar as sensações do corpo e a reconhecer que cada emoção tem uma mensagem e cada resistência uma intenção, pois mesmo os comportamentos que nos fazem sofrer surgiram, em geral, como uma tentativa de proteção. Usando ferramentas como a imaginação consciente, criamos novas referências internas, mas a verdadeira transformação só acontece quando essa visão é acompanhada por emoções congruentes e ações consistentes no dia a dia. Não se trata de controlar tudo o que está à nossa volta, mas de transformar a forma como nos relacionamos connosco próprios — porque, com mais consciência, mais amor-próprio e mais alinhamento interno, começamos naturalmente a fazer escolhas diferentes, e são essas escolhas que criam resultados diferentes. O objetivo da terapia não é eliminar partes de nós nem obrigar a mudança, mas compreender, criar diálogo interno e ajudar cada parte a encontrar um lugar mais saudável dentro de nós. Quando isso acontece, surge mais clareza, mais liberdade e a sensação crescente de que estamos finalmente a viver a nossa vida, em vez de apenas reagir às circunstâncias — porque, muitas vezes, a mudança começa no momento em que deixamos de tentar controlar tudo o que está fora e passamos a ouvir aquilo que existe dentro de nós.

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